O buraco do Bellotto
"Capitu traiu ou não traiu Bentinho"? Durante lançamento de seu novo livro, No Buraco, em Belo Horizonte, Tony Bellotto foi confrontado por uma pessoa da plateia com a questão mais famigerada da literatura brasileira. "Traiu, claro que traiu", respondeu o escritor - sim, ali estava o escritor - sem pestanejar. Eu, sinceramente, prefiro não assumir nenhuma opinião com tanta veemência. Opto pelo benefício da dúvida. Também opto pelo benefício da dúvida ao cair na tentação de tentar (pleonasmo?) descobrir se todos aqueles imbróglios vividos pelo narrador-personagem de No Buraco, Teo Zanquis, nos bastidores do rock nacional dos anos 80, são apenas criações da mente fértil de Bellotto ou relatos autobiográficos camuflados pela literatura. Seja como for, a viagem ao período mais prolífero e colérico da música brasileira, vem costurada pelas crises existenciais de um músico que fracassou, por uma treta com uma máfia coreana e até pela descoberta de uma paixonite tardia. Tudo relatado com uma acidez e uma agilidade que mostram como a narrativa de Tony Bellotto tem ficado cada vez mais apurada. Destaco aqui a peculiar adjetivação desenvolvida pelo autor. Trechos como "Lien concluiu, surpresa, depois de melecar o cordoamento de Isabel com óleo cancerígeno reaproveitado na fritura de pastéis ambíguos" e "Uma espécie de Joana D'arc praiana, imolada por abobrinhas incandescentes, bobajadas inflamáveis e babaquices flamejantes", revelam a irreverência de Teo Zanquis e arranca risadas. Eu, pelo menos, ri. E alto. Mas logo disfarcei. Não queria que Teo chamasse minha atenção. Porque, sim, ele faz isso o tempo todo. Conversa com o leitor. Uma das sacadas machadianas usadas por Bellotto. Uma das. Vale dizer também que No Buraco tem algo de motivacional. Não, não. Tony Bellotto não se enveredou pela literatura de autoajuda. Mas é que Teo Zanquis está tão na merda que qualquer se sente bem depois de ler esse livro. Sabe aquela sensação de "é, tem sempre alguém pior que eu"? Pois é. Teo está mais no buraco que qualquer um. Está no buraco literalmente, pois narra sua história com o rosto enterrado num buraco na areia da praia de Ipanema. Está no buraco figurativamente, pois vive num estado de letargia e acomodação desde que sua one hit band afundou no fracasso após uma meteórica e vertiginosa carreira. E está - ou pelo menos esteve - no buraco sexualmente. Mas estes ele frequentou com louvor no sucesso e no fracasso.
Ao terminar de ler o livro me lembrei de uma história que aconteceu comigo e alguns amigos numa praia do Rio, no início do ano. Avistamos, de longe, um homem deitado na areia - e já era noite - tal como o narrador-personagem de No Buraco se mantém o livro inteiro. Desafiada pelos amigos, e pela cerveja, corri em direção ao homem e saltei sobre ele. Ao senti a lufada de areia que meus pés jogaram sobre suas costas, o homem reagiu, murmurando: "Ui". Só não digo que era Teo Zanquis porque Teo Zanquis, sem bem conheço, não reagiria dizendo "ui".
(Fernanda Pinho, Belo Horizonte/MG)